Essas variedades ganham espaço e redesenham o mercado global do vinho
Durante décadas, o mercado global do vinho foi dominado por um grupo restrito de castas internacionais. Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay e Sauvignon Blanc tornaram-se sinônimos de qualidade, reconhecimento e segurança comercial. Em paralelo, centenas de variedades locais, muitas delas cultivadas há séculos, foram sendo deixadas de lado, reduzidas a poucos hectares ou quase levadas ao desaparecimento.
Nos últimos anos, porém, esse movimento começou a se inverter. Produtores, pesquisadores, sommeliers e consumidores mais atentos passaram a redescobrir castas autóctones, raras ou pouco conhecidas, não apenas como curiosidade, mas como expressão de identidade, diversidade e autenticidade em um mercado cada vez mais saturado de estilos previsíveis.
A redescoberta dessas uvas não é apenas cultural ou sensorial, ela também tem base científica. A viticultura moderna enfrenta desafios importantes, como mudanças climáticas, eventos extremos e a padronização genética das vinhas.
Castas locais, muitas vezes adaptadas há séculos a microclimas específicos, apresentam características valiosas de resistência, equilíbrio natural e adaptação ao território, despertando o interesse de universidades, centros de pesquisa e consórcios regionais.
Preservar essas variedades significa preservar biodiversidade e, ao mesmo tempo, ampliar o repertório do vinho contemporâneo.
Entre as castas italianas que melhor simbolizam essa retomada está a Trebbiano Spoletino, originária da Úmbria. Apesar do nome, ela não deve ser confundida com outros Trebbianos mais difundidos, tradicionalmente associados a vinhos neutros e de consumo rápido.
O Trebbiano Spoletino é geneticamente distinto e se comporta de forma completamente diferente no vinhedo e na taça. Trata-se de uma uva naturalmente rica em acidez, com boa concentração e capacidade de manter frescor mesmo em anos mais quentes.
Essas características explicam por que muitos produtores optam por vinificações mais ambiciosas, incluindo longos períodos sobre as borras, fermentações espontâneas e, em alguns casos, estágio em madeira.
O resultado são vinhos brancos de estrutura sólida, textura envolvente e notável potencial de guarda, capazes de evoluir por vários anos, desenvolvendo notas de mel, ervas secas, frutos secos e mineralidade, um perfil ainda pouco associado aos brancos italianos no imaginário do consumidor médio.
No Piemonte, região consagrada por grandes nomes, a Ruchè sobreviveu durante muito tempo à margem. Cultivada principalmente na pequena área de Castagnole Monferrato, essa casta quase desapareceu ao longo do século 20.
Hoje, ela reaparece como um exemplo claro de identidade local. A Ruchè origina vinhos tintos intensamente aromáticos, com notas florais, especiarias e frutas vermelhas, taninos moderados e perfil elegante. São vinhos que fogem dos arquétipos mais conhecidos da região e que justamente por isso despertam interesse entre sommeliers e consumidores em busca de algo diferente.
Poucas castas representam tão bem a fragilidade do patrimônio vitícola quanto a Arvesiniadu, uma uva branca raríssima da Sardenha. Cultivada em áreas extremamente limitadas, ela é considerada uma das variedades mais ameaçadas da Itália.
Do ponto de vista enológico, a Arvesiniadu origina vinhos de perfil delicado, elevada acidez e caráter mineral, frequentemente associados a notas cítricas e herbáceas. Sua adaptação a solos pobres e climas quentes chama atenção em um contexto de aquecimento global, tornando-a relevante não apenas do ponto de vista histórico, mas também agronômico.
Mais do que volume ou escala, a Arvesiniadu representa um esforço consciente de preservação: pequenos produtores e projetos experimentais trabalham para manter viva uma uva que carrega séculos de história agrícola e cultural.
No extremo norte da Itália, o Valle d’Aosta abriga algumas das vinhas mais altas da Europa. Ali sobrevivem castas raras como a Roussin de Morgex, cultivada em encostas alpinas, muitas vezes em parcelas minúsculas.
Essas uvas enfrentam condições extremas, frio intenso, forte insolação e solos pobres, e dão origem a vinhos de frescor pronunciado, baixa graduação alcoólica e perfil profundamente ligado ao território. São exemplos claros de como a viticultura de montanha pode gerar vinhos de precisão e identidade, ainda pouco conhecidos fora de círculos especializados.
A ascensão das castas menos conhecidas também responde a uma mudança clara no comportamento do consumidor. Em um mercado cada vez mais informado, o interesse por novidades reais, e não apenas por rótulos famosos, cresce de forma consistente.
Uvas raras, ou pouco conhecidas, oferecem diferenciação, história e personalidade, atributos cada vez mais valorizados por quem já conhece os clássicos.
Para importadores e distribuidores, essas castas representam uma oportunidade estratégica: volumes menores, mas com alto valor agregado, forte apelo narrativo e capacidade de criar identidade no portfólio. Para o mercado, são vinhos que ajudam a educar o consumidor, estimular a curiosidade e ampliar o repertório de escolhas.
Mais do que uma tendência, o resgate dessas uvas aponta para um futuro menos padronizado e mais plural. Um futuro em que o vinho volta a ser, acima de tudo, expressão de lugar, de cultura e de diversidade, exatamente o que muitos consumidores estão procurando hoje.
Fonte: R7