Com tarifas em queda, a ProWine São Paulo aumenta seu protagonismo como hub de negócios de vinhos nas Américas, conectando produtores, ampliando mercados e aumentando a presença global dos rótulos dos dois blocos
O acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, com entrada em vigor prevista para 1º de maio, prevê a redução gradual das tarifas de importação sobre vinhos europeus. A medida tende a ampliar o acesso a rótulos do Velho Mundo, com potencial impacto direto nos preços e na dinâmica de concorrência no Brasil.
“A ratificação do acordo UE-Mercosul promete redesenhar as forças do setor vitivinícola no Brasil. O cenário atual, onde a América do Sul lidera com 59% contra 40% da Europa, sofrerá pressão direta com a queda gradual de impostos. Portugal, consolidado como terceiro maior destino das suas exportações para o Brasil, deve desafiar a hegemonia chilena no segmento de ‘primeiro preço'”, explica o CEO da Ideal BI Consulting, Felipe Galtaroça.
Na leitura de entidades internacionais que estarão presentes na ProWine São Paulo 2026, o movimento é visto também como uma oportunidade competitiva. Segundo o presidente da ViniPortugal, Frederico Falcão, com a implementação do Acordo Mercosul–União Europeia, a eliminação gradual dessas tarifas tende a promover um ambiente mais equilibrado de concorrência. Isso permitirá que os vinhos europeus cheguem ao consumidor com preços mais acessíveis, ampliando sua competitividade e potencial de penetração no mercado. Ao mesmo tempo, o acordo também favorece os produtores do Mercosul, que passam a ter melhores condições de acesso ao mercado europeu, estimulando uma dinâmica de troca mais equilibrada entre os blocos.
“No contexto específico do Brasil, trata-se de um mercado estratégico para os Vinhos de Portugal, que atualmente detêm cerca de 16% de quota de mercado. Ainda há um amplo espaço para crescimento, sobretudo considerando o baixo consumo per capita de vinho no país. A redução de tarifas poderá viabilizar a oferta de produtos em faixas de preço mais competitivas, ampliando o acesso a novos consumidores”, destaca Falcão.
Mais do que intensificar a concorrência direta entre origens, o presidente da ViniPortugal reitera que a principal oportunidade está na “democratização” do consumo de vinho — tornando-o mais acessível e presente no dia a dia dos consumidores. Com isso, a bebida pode ganhar participação em relação a outras categorias, impulsionando o crescimento do mercado como um todo.
Essa visão é compartilhada por outros países europeus que começam a olhar com mais atenção para a América do Sul. Para o Instituto Alemão do Vinho (Deutsches Weininstitut), que participará pela primeira vez da ProWine São Paulo em 2026, o acordo representa uma oportunidade estratégica de diversificação de mercados, especialmente em um contexto de tensões comerciais globais.
Com a redução das tarifas, que hoje chegam a 27%, o Brasil passa a ganhar relevância no radar dos exportadores alemães. Atualmente, o país ocupa a 38ª posição entre os principais destinos dos vinhos alemães, mas apresenta alto potencial de crescimento, impulsionado pelo tamanho da população e pela expansão da classe média.
Além do fator econômico, há também uma leitura de adequação de produto. Vinhos brancos alemães, com menor teor alcoólico e perfil mais fresco e frutado, tendem a se alinhar bem a uma gastronomia mais leve e ao clima de mercados como o brasileiro.
Historicamente concentrados em mercados como América do Norte, Europa e Ásia, os produtores alemães vêm, nos últimos anos, ampliando seu foco para novos destinos, como o Brasil — movimento que deve se intensificar com a queda das barreiras comerciais.
Como reflexo direto dessa estratégia, a Alemanha está organizando sua primeira participação com um grupo de produtores para a ProWine São Paulo 2026, por meio do Ministério Federal da Agricultura. “A ProWine São Paulo é um componente fundamental da estratégia de exportação dos produtores de vinho alemães. Desde o seu lançamento em 2020, cresceu rapidamente e consideramos que representa uma vitrine perfeita para os nossos produtores e seus vinhos. Afinal, o negócio do vinho é um negócio de pessoas. É ótimo aprender sobre vinhos e degustá-los, mas quando se trata do lado comercial do negócio, nada substitui os encontros entre produtores e potenciais importadores”, fala o gerente de marketing do Deutsches Weininstitut, Michael Schemmel.
De acordo com Galtaroça, paralelamente, a Argentina enfrentará maior concorrência de França e Itália. “No nicho de vinhos premium, a tendência é uma oferta ainda mais agressiva de regiões tradicionais como Borgogna, Bordeaux e Piemonte. Além do ganho de mercado, o acordo surge como um alívio necessário para a rentabilidade dos importadores e distribuidores, permitindo o ajuste de margens que foram comprimidas pela volatilidade do câmbio e pela inflação nos últimos períodos”, declara.
Entre os produtores sul-americanos, o olhar é mais cauteloso. Para a CEO da Wines of Argentina — associação também confirmada na ProWine São Paulo 2026 —, Magdalena Pesce, a visão do setor sobre o mercado interno, à luz do acordo com a União Europeia, é de cautela estratégica, com preocupações não sobre a qualidade do vinho europeu, mas sobre a própria estrutura de custos. O verdadeiro desafio é a competitividade macroeconômica.
A entrada de vinhos da Espanha ou da Itália com tarifas zero será gradual, mas poderá pressionar os segmentos de entrada se a Argentina não resolver primeiro suas assimetrias tributárias e os altos custos de logística interna. A concorrência é saudável e bem-vinda, desde que haja igualdade de condições para que as vinícolas locais não fiquem em desvantagem em relação a países com economias muito mais estáveis.
“De uma perspectiva empresarial mais otimista, o acordo traz consigo uma oportunidade crucial para o mercado interno: o acesso a insumos de qualidade a preços internacionais. A importação de barris, rolhas e tecnologia de vinificação com menos barreiras tarifárias permitiria que as vinícolas locais melhorassem sua eficiência e qualidade, o que, paradoxalmente, fortaleceria sua posição nas prateleiras argentinas. O consumidor local tem uma forte ligação cultural com nossas variedades de uva e regiões, o que funciona como uma barreira natural contra os estilos europeus que, embora prestigiosos, são desconhecidos para o paladar argentino médio”, analisa Magdalena.
Em última análise, ela pondera que a presença de vinhos europeus no mercado interno servirá como catalisador para a modernização de “nossas próprias narrativas”. O fato de os consumidores argentinos começarem a ver rótulos que atendem aos rigorosos padrões ambientais da UE forçará a indústria nacional a acelerar sua própria agenda de sustentabilidade. Nesse sentido, o acordo não é visto como uma ameaça de deslocamento, mas como um impulso para que o vinho argentino — inclusive o consumido em casa — se alinhe às tendências globais de transparência e rastreabilidade que a Wines of Argentina já promove.
Esse novo equilíbrio também é acompanhado de perto por empresas que atuam diretamente na importação e curadoria de portfólio — muitas delas participantes da ProWine São Paulo.
“Para a Monte Dictis, esse movimento abre uma janela de oportunidade muito concreta. Nossa estratégia passa a ser dupla: de um lado, preparar o mercado para a chegada de novos consumidores que poderão descobrir os vinhos do Mediterrâneo Oriental com preços mais acessíveis; de outro, aprofundar o trabalho de curadoria, educação e relacionamento com sommeliers, wine bars, empórios e restaurantes que já compreendem o diferencial da Grécia”, fala o sócio-administrador da importadora que trabalha exclusivamente com vinhos, azeites e produtos de origem grega e é um dos destaques da feira, Georges Karakaxis.
Segundo ele, a Grécia não compete apenas por preço, mas por identidade. Variedades como Assyrtiko, Agiorgitiko, Xinomavro, Malagousia e Mavrotragano expressam regiões, solos e tradições que não se confundem com os vinhos de grande escala. Nesse sentido, o acordo pode permitir a ampliação do portfólio e tornar algumas categorias mais competitivas, sem comprometer o posicionamento premium já construído para os vinhos gregos no Brasil.
Karakaxis considera que a redução de custos tende a ampliar a diversidade de rótulos, ao mesmo tempo em que aumenta a pressão sobre produtores locais — um movimento que, segundo ele, deve ser analisado com equilíbrio. A tendência é clara: mais diversidade, maior competitividade de preços e presença mais forte de vinhos europeus no mercado brasileiro, beneficiando o consumidor e abrindo espaço para produtores que antes enfrentavam barreiras de entrada.
“Mas há um ponto importante: a abertura de mercado não favorece automaticamente todos os produtores europeus. Os produtores artesanais, familiares e de pequena escala — justamente aqueles que trabalham com identidade de terroir, baixa intervenção e produção limitada — continuam enfrentando desafios de volume, logística, custo de exportação e comunicação de marca. Muitos dos produtores gregos com quem trabalhamos estão exatamente nesse perfil. Por isso, o papel de um importador especializado se torna ainda mais relevante. Não se trata apenas de trazer garrafas; trata-se de construir contexto, explicar origem, formar mercado e apresentar ao consumidor brasileiro vinhos que talvez nunca chegassem aqui por canais puramente comerciais de volume”, atesta Karakaxis.
É nesse novo cenário, em que ganhar ou defender mercado passa a ser uma decisão estratégica, que a ProWine São Paulo se afirma como o principal território de conexão do setor. Em 2026, o evento reúne mais de 1.800 produtores — um salto em relação aos mais de 1.500 expositores de 36 países na edição anterior — e consolida sua posição como a maior feira de vinhos e destilados das Américas, a maior fora da Europa e a quarta maior do mundo no segmento.
“Em 2026, a ProWine São Paulo chega a uma edição especialmente relevante, em um momento em que a América do Sul ganha ainda mais atenção no cenário global. A feira é a melhor plataforma para quem quer fazer negócios na região, entrar no mercado ou ampliar sua presença, seja para crescer, seja para defender seu espaço”, afirma a diretora da feira, Malu Sevieri.
O evento será realizado de 6 a 8 de outubro, no Expo Center Norte, na cidade de São Paulo e as inscrições para visitantes profissionais já estão abertas gratuitamente. Para mais informações: prowinesaopaulo.com.