Enquanto importações de vinho crescem 37% em seis anos, inflação e câmbio corroem margens e impõem desafios estratégicos ao setor
por Por Felipe Galtaroça, IDEAL.BI
As importações de vinho no Brasil registraram um crescimento notável de 37,3% nos últimos seis anos, saltando de 12,8 milhões de caixas de 9 litros em 2018 para 17,7 milhões em 2024. Em termos de valor, esse aumento foi ainda mais expressivo, atingindo 40,6% e totalizando US$ 518,2 milhões em 2024. Esse cenário promissor tem atraído a atenção de exportadores globais para o mercado brasileiro.
No entanto, uma análise mais aprofundada revela um desafio significativo: a rentabilidade. No mesmo período, a inflação acumulada foi de 39,2% e a desvalorização do real atingiu 47,5%. Ambos os fatores exigiriam um reajuste substancial nos preços de venda, o que não ocorreu. O preço médio do vinho importado subiu apenas 15% nos últimos seis anos, passando de R$ 47,90 para R$ 55,30. Esse aumento insuficiente resultou em uma considerável redução da rentabilidade para os envolvidos na cadeia de distribuição.
Diante desse cenário desafiador, a pergunta crucial é: como sustentar a rentabilidade sem repassar os custos ao consumidor? A resposta reside em uma combinação de abordagens estratégicas, que podem incluir: Otimização da estrutura de custos, Fortalecimento da marca e aproximação do consumidor final.
Embora essas soluções possam parecer simples na teoria, sua implementação é complexa. Investir na valorização da marca e desenvolver ferramentas para se conectar com o consumidor final não é um processo rápido. Demanda tempo, investimento financeiro significativo e um foco estratégico inabalável. O maior obstáculo, no entanto, é o dia a dia das operações, que frequentemente consome todo o tempo e recursos, empurrando as empresas para soluções mais fáceis, porém menos rentáveis a longo prazo.
América Latina: Um Novo Foco para os Produtores de Vinho Globais
Com um cenário global cada vez mais complexo, marcado pela queda nas exportações para a China, a redução do consumo e mudanças tributárias na Europa, e o risco tributário no mercado americano, produtores de vinho ao redor do mundo estão voltando seus olhos para a América Latina.
Embora as importações totais da região sejam relativamente modestas, aproximadamente US$ 1,2 bilhão em 2024, com o Brasil representando 42% e o México 26% desse volume, o crescimento de 8% em relação ao ano anterior acende um otimismo. Esse otimismo se justifica pelo baixo consumo per capita na região, que aponta para um potencial de crescimento futuro significativo.
No entanto, a concretização desse potencial enfrenta desafios. As condições econômicas atuais em diversos países latino-americanos retardam o ritmo de crescimento, exigindo paciência e estratégias adaptadas dos exportadores.
O Futuro do Mercado Brasileiro de Vinhos
Consumo e Pressões Globais
Em um cenário de instabilidade econômica global e constante pressão dos produtores por volume, uma questão se impõe: até quando o Brasil conseguirá absorver essa oferta sem um crescimento significativo do consumo per capita? Essa pressão de oferta tem impulsionado uma guerra de preço e consecutivamente a queda da rentabilidade? Para entender melhor essa dinâmica e seus possíveis desdobramentos, consultamos importantes executivos do setor.
Pietro Capuzzi, Country Manager da Concha y Toro no Brasil “O mercado brasileiro tem mostrado evolução e segue cheio de oportunidades, mas o cenário atual é desafiador. A pressão global por volume e a alta competitividade testam diariamente a resiliência de todos os players do setor”
Alexandre Magno, CEO do Grupo Wine.com.br “O setor de vinho importado no Brasil enfrenta um desafio significativo de rentabilidade em toda a sua cadeia. Ao contrário de muitos outros produtos, o vinho, mesmo sendo altamente atrelado às variações cambiais, não registrou um aumento de preço expressivo nos últimos anos. Embora a eficiência operacional possa e deva ser aprimorada para melhorar as margens, acreditamos que a solução principal vai além do simples corte de custos ou aumento de preços.
Nossa visão é que o ponto central para um crescimento sustentável do setor reside na ampliação do mercado. Isso significa buscar a hiperdisponibilidade do vinho, garantindo sua presença em todos os canais e ocasiões de consumo. Seja no supermercado, no restaurante local, no e-commerce, em clubes de assinatura, como presente corporativo ou para o consumo diário, o vinho precisa estar acessível.
Mas estar presente não é o suficiente. É crucial que o produto certo esteja disponível, com a qualidade ideal, no preço adequado e, quando aplicável, na temperatura perfeita para consumo. Nesse sentido, nos inspiramos na trajetória da AMBEV, que profissionalizou o setor de bebidas e demonstrou como um olhar estratégico pode transformar um mercado.
Com aproximadamente 50% da nossa receita proveniente do B2B, vemos o pequeno varejo e o autosserviço como parceiros estratégicos fundamentais para democratizar o acesso e simplificar o consumo de vinho. Oferecemos a esses parceiros muito mais do que apenas garrafas de vinho. Nosso trabalho inclui uma curadoria especializada para garantir o giro dos produtos e ações de sell out que estimulem a reposição contínua.
Essa maior presença no mercado gera mais experimentação por parte do consumidor, que, por sua vez, desenvolve um hábito de consumo. Esse ciclo virtuoso resulta em mais valor gerado para toda a cadeia do vinho, impulsionando o crescimento de forma sustentável e rentável”.
Fonte: Revista Adega