Produto com séculos de história e mercado bilionário, o destilado conquista novos mercados, novas gerações — e um Brasil que já figura entre os cinco maiores consumidores do mundo
Em volume e em valor, o whisky nunca esteve tão presente no mundo. O mercado global da bebida foi avaliado em cerca de US$ 78 bilhões em 2024 e, segundo projeções da Global Growth Insights, deve superar US$ 136 bilhões até 2034, crescendo a uma taxa anual de quase 6%. São números que refletem algo mais do que demanda por álcool: o avanço de uma cultura de consumo que valoriza origem, processo e tempo de envelhecimento como atributos tão relevantes quanto o sabor em si.
A origem do destilado remonta ao século XV, quando monges irlandeses e escoceses dominavam a arte da destilação de cereais fermentados. A palavra “whisky” vem do gaélico “uisce beatha”, ou água da vida. Muito antes de ser símbolo de sofisticação, era medicamento, moeda de troca e ração de guerra. O Scotch Whisky Act de 1988 — revisado em 2009 — codificou regras que a Escócia já praticava há décadas: maturação mínima de três anos em barris de carvalho, destilação exclusiva em território escocês, teor alcoólico entre 40% e 94,8%. Hoje, o Scotch representa sozinho quase 40% de todo o mercado global.
Mas o mundo do whisky vai muito além das Highlands. O bourbon americano, produzido majoritariamente no Kentucky, exige pelo menos 51% de milho na composição do mosto e envelhecimento em barris de carvalho novos e carbonizados — o que lhe confere aquelas notas características de baunilha e caramelo.
O Japão, que começou a destilar em escala comercial apenas nos anos 1920, com Masataka Taketsuru estudando o processo na Escócia e levando o método de volta para casa, hoje compete em igualdade aos prêmios internacionais mais cobiçados. E a Irlanda, berço histórico do destilado, experimenta uma das maiores ressurgências do setor, com dezenas de novas destilarias abertas na última década após anos de retração.
O processo de produção, independentemente da origem, começa pela fermentação dos grãos — cevada, milho, centeio ou trigo, dependendo do estilo — e passa pela destilação em alambiques de cobre ou colunas contínuas. É no envelhecimento, porém, que o produto ganha sua personalidade definitiva. O tipo de barril importa: ex-bourbon, ex-Sherry, ex-vinho do Porto, ex-Madeira. O clima do local de maturação também, já que variações de temperatura aceleram ou retardam a interação entre o destilado e a madeira. Um whisky de 12 anos produzido na Escócia e outro de 12 anos feito no Brasil podem ser radicalmente diferentes.
O mercado de single malts e expressões premium cresce mais rápido do que o segmento padrão. Em 2024, o consumo global de whisky cruzou a marca de 4,9 bilhões de litros, e o segmento de luxo — composto por expressões com mais de 12 anos de maturação — registrou aumento de demanda de 26% nos dois anos anteriores, segundo a Market Growth Reports. Edições limitadas esgotam em horas. Garrafas raras são leiloadas por cifras que rivalizam com obras de arte. Em 2024, as autoridades europeias e asiáticas apreenderam mais de 42 mil garrafas falsificadas em circulação — um indicador, por paradoxal que pareça, do quanto o produto é desejado.
O Brasil entra nessa equação com força. Segundo dados da Euromonitor International, o consumo brasileiro cresceu 16% entre 2021 e 2023, colocando o país como o terceiro mercado que mais avançou no período, atrás apenas de Japão e Índia. No ranking absoluto, o Brasil já ocupa a quinta posição mundial em consumo. Em 2024, o país importou 52 milhões de garrafas de Scotch — alta de 22,8% em relação ao ano anterior, conforme a Scotch Whisky Association. O Reino Unido responde por 83% do valor FOB das importações brasileiras da bebida.
Há uma virada qualitativa em curso no país. O consumidor brasileiro ainda consome muito blended — os whiskies misturados, mais acessíveis e de maior volume —, mas o interesse por single malts e expressões envelhecidas cresce de forma consistente. Destilarias nacionais, especialmente no Sul do país, começam a ganhar prêmios internacionais. Recife, curiosamente, é apontada por especialistas como a cidade com o maior consumo per capita de whisky do mundo — um dado que contraria expectativas e explica muito sobre como a bebida se incorporou à cultura social brasileira, de formas e em contextos que fogem completamente ao estereótipo europeu.
Essa pluralidade de origens, estilos e públicos é o que torna o whisky um destilado particularmente interessante para feiras do setor de bebidas. A ProWine São Paulo 2026, que ocorrerá de 06 a 08 outubro no Expo Center Norte, reunirá importadores, distribuidores, sommeliers e outros profissionais em torno de um portfólio que inclui não apenas vinhos e espumantes, mas toda a cadeia de spirits premium — entre eles, os whiskies. Para inscrições gratuitas e mais informações, acesse: prowinesaopaulo.com.