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ProWine São Paulo mostra que Brasil pode ter deixado de ser só o país do futuro para o vinho

Com mais de 2 mil produtores e recorde de público, feira reforça como o mercado brasileiro se tornou estratégico para o setor global da bebida

Durante muitos anos ouvi produtores estrangeiros falarem do Brasil como um mercado de enorme potencial. População grande, consumo per capita ainda baixo e uma cultura de vinho que começava a crescer. O discurso quase sempre terminava da mesma forma: o Brasil era o mercado do futuro. Depois de tantos anos ouvindo isso, talvez esteja na hora de mudar a pergunta: esse futuro finalmente chegou?

Um bom lugar para procurar a resposta será a ProWine São Paulo, que acontece entre 6 e 8 de outubro e chega à sua sétima e maior edição. Serão mais de 2 mil produtores e, pela primeira vez, dois pavilhões do Expo Center Norte. No ano passado, mais de 20 mil profissionais passaram pela feira e, segundo a organização, 87% eram tomadores de decisão. Mais do que o tamanho, esse último número ajuda a explicar por que tantos produtores estão dispostos a atravessar o mundo para passar três dias em São Paulo.

Conversei recentemente com Christian Burgos, diretor da ProWine São Paulo, sobre esse crescimento. A preocupação dele não está apenas em colocar mais expositores dentro da feira, mas em crescer de maneira organizada e, principalmente, gerar negócios. Parece óbvio, mas não é. Uma feira profissional não deveria ser medida pelo número de garrafas abertas ou pela quantidade de pessoas nos corredores. No final, produtores precisam encontrar importadores, importadores precisam encontrar clientes e negócios precisam acontecer.

Diversidade de rótulos e interesse internacional
É justamente a quantidade e a diversidade de produtores interessados no Brasil que mais me chamam atenção. Além das origens tradicionais, como Portugal, Argentina, Chile, Itália, Espanha e França, chegam produtores de países ainda pouco presentes por aqui e até casas de Champagne sem distribuição no Brasil.

O país não virou um mercado fácil. Continuamos convivendo com impostos altos, câmbio complicado, logística cara e consumo per capita relativamente pequeno. Mas existe uma diferença importante entre um mercado difícil e um mercado sem espaço para crescer.

E talvez o momento internacional ajude a explicar esse interesse. O mercado mundial de vinho vive uma fase complicada, com pressão sobre o consumo em mercados tradicionais e produtores procurando novas fontes de crescimento. Ao mesmo tempo, as incertezas em torno das tarifas americanas dificultaram o planejamento de quem exporta para os Estados Unidos. Quando alguns mercados maduros têm dificuldade para crescer e outros ficam menos previsíveis, um país do tamanho do Brasil naturalmente começa a aparecer com mais frequência no mapa.

Da promessa à realidade dos negócios
A expansão da ProWine São Paulo é uma consequência visível disso. Em poucos anos, a feira deixou de ser apenas mais um encontro do setor para ganhar relevância internacional. O salto para dois pavilhões importa, mas considero mais interessante a mudança na conversa. Antes, muitos produtores vinham ao Brasil para conhecer o mercado e descobrir se existia uma oportunidade. Cada vez mais, chegam procurando distribuição, parceiros e espaço em um país que já entrou no planejamento de suas empresas.

Isso aumenta também a responsabilidade da própria feira. Crescer em metros quadrados é uma coisa; conseguir colocar o produtor certo diante do comprador certo é outra. Se a ProWine São Paulo transformar esse aumento de tamanho em negócios, passa a exercer um papel ainda mais importante na organização e no desenvolvimento do mercado brasileiro. E talvez seja justamente esse o ponto central desta edição: não provar que o Brasil se tornou um mercado fácil, porque não se tornou, mas mostrar que ele já é relevante o suficiente para atrair mais de 2 mil produtores em busca de negócios.

Durante décadas, ouvimos que o Brasil seria o país do futuro para o vinho. Ainda temos muito para crescer, mas talvez a ProWine São Paulo de 2026 seja mais um sinal de que está na hora de olhar menos para a promessa e prestar mais atenção no que já está acontecendo agora.

*Artigo de Pedro Fadanelli
*Publicado originalmente na Exame

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