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A participação do Brasil no mundo dos vinhos

Enquanto os mercados maduros enfrentam saturação e retração em volume, o Brasil combina o menor consumo per capita entre os grandes players

Nos últimos anos, muito tem se falado sobre a importância do Brasil no mundo dos vinhos. Por isso, decidi explicar a exata representatividade dos nossos números no mercado global, além de trazer informações valiosas que vão além das estatísticas.

No ibhub, mapeamos dados estratégicos sobre 63 países importadores de vinhos e espumantes, cobrindo cerca de 93% de todo o comércio global. Em 2025, esses mercados movimentaram juntos 34,0 bilhões de dólares e 922,7 milhões de caixas de 9 litros.

No comparativo entre 2025 e 2024, as importações globais registraram uma retração de 4,7% em volume. Em valor, no entanto, a queda foi substancialmente menor, inferior a 0,5%, sinalizando uma migração para produtos de maior valor agregado. Em 2025, o preço médio por caixa de 9 litros atingiu US$ 36,90, o que representa uma alta de 7% em relação ao ano anterior.

Em 2025, o desempenho por categorias revelou a seguinte distribuição: os vinhos engarrafados (até 2 litros) lideraram o mercado, representando 50% do volume e 66% do valor importado. Na sequência, os espumantes responderam por 11% do volume e 24% do valor. Já os vinhos envasados entre 2 e 10 litros registraram uma participação modesta, de 3% em volume e 2% em valor. Por fim, a categoria a granel (embalagens acima de 10 litros) manteve relevância expressiva em volume, concentrando 35% do total, mas apenas 8% do valor gerado.

E como fica o Brasil nesse mapa global de importações? Em 2025, ocupamos a 15ª posição em valor (1,6% do mercado, com alta de 0,1 p.p.) e a 16ª em volume (2,0%).

No entanto, como a legislação brasileira proíbe a importação de vinho a granel, o cenário muda quando olhamos apenas para os engarrafados de até 2 litros: o Brasil salta para o 13º lugar em valor e atinge um impressionante 8º lugar global em volume (3,7% de share). Já na categoria de espumantes, a força da produção nacional vence os importados, deixando o país na 26ª posição em valor e 23ª em volume.

Por que o Brasil é um mercado tão estratégico para o setor global de vinhos neste momento?

Quando analisamos os 10 maiores importadores do mundo em valor, excluindo o vinho a granel (embalagens acima de 10 litros), temos um bloco formado por Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Canadá, Japão, Holanda, China, Bélgica, Suíça e Suécia. Juntas, essas nações concentram quase 80% das importações mundiais da categoria. No entanto, o cenário nesses mercados maduros é de retração: no último ano, apenas três deles cresceram em volume (Alemanha, Bélgica e Suécia) e metade manteve alta em valor.

Esse esfriamento dos líderes globais é agravado por riscos sistêmicos relevantes: potenciais aumentos tributários nos EUA, a contínua retração da demanda chinesa por vinhos engarrafados, além de guerras, gargalos logísticos e eventos climáticos extremos, como as queimadas nas principais regiões produtoras. Nesse contexto de incertezas nos canais tradicionais, o Brasil desponta como uma das poucas fronteiras de crescimento sustentado, combinando forte demanda por valor agregado e avanço constante no consumo per capita.

As importações brasileiras dobraram de tamanho nos últimos dez anos e, como o consumo per capita no país ainda é o menor entre os principais importadores globais, o potencial de crescimento é iminente. Trata-se de um mercado jovem, em plena transformação e profissionalização, repleto de desafios econômicos e culturais. No entanto, é nítido que o setor no Brasil está longe de dar sinais de cansaço ou estagnação, mesmo diante de tendências globais adversas, como a redução do consumo de álcool e a dificuldade de engajar as novas gerações na categoria.

O acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia pode acelerar significativamente esse movimento. Com o aumento dos investimentos e a redução progressiva de barreiras tarifárias, o Brasil ganha musculatura para escalar posições no ranking dos grandes importadores globais. Esse dinamismo tende a se estender a outros mercados latino-americanos, como o México, que também consolida sua posição no radar estratégico dos principais produtores e exportadores mundiais.

Qual é a avaliação frente a esse cenário? O Brasil é, sem dúvida, a bola da vez. Enquanto os mercados maduros enfrentam saturação e retração em volume, o Brasil combina o menor consumo per capita entre os grandes players com uma crescente demanda por produtos de maior valor agregado. Os desafios econômicos e tributários existem, mas a resiliência demonstrada pelo país consolida o mercado brasileiro como a principal fronteira de oportunidade e crescimento para o setor vitivinícola global.

Artigo de Felipe Galtaroça, CEO Ideal.Bi e IBHub

Fonte: Revista ADEGA

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