Categoria responde por 12% do mercado de bebidas alcoólicas no país, mas a comparação com nações semelhantes indica forte potencial de crescimento
A cerveja ainda domina o consumo no Brasil, mas os destilados começam a avançar nas prateleiras, nas cartas e nos pedidos. Hoje, os spirits respondem por cerca de 12% do faturamento de bebidas alcoólicas no país, segundo o Caderno Setorial da Indústria de Bebidas Alcoólicas, publicado pelo ETENE/BNB em 2025.
O dado isolado é relevante, mas ganha mais sentido na comparação: na Alemanha e no Chile, países onde a cerveja também lidera o consumo, essa fatia chega a 20% e 21%, respectivamente. No Brasil, os destilados ainda ocupam uma parcela menor — lacuna que evidencia o potencial de expansão do segmento no médio prazo.
A frequência de compra de destilados no Brasil é de cerca de duas vezes por ano, contra 24 vezes para bebidas alcoólicas em geral. Essa distância não é necessariamente sinal de desinteresse — é, mais provavelmente, sinal de um hábito que ainda está se formando. O próprio International Wine and Spirits Record (IWSR) incluiu o Brasil, ao lado de Índia, México e África do Sul, entre os mercados emergentes com maior potencial de valorização para a próxima década.
Nesse cenário, a cachaça merece atenção separada. Não porque seja a mais óbvia das apostas, mas porque é o único destilado com produção, história e identidade 100% brasileira. Enquanto os outros grandes players do segmento chegam importados, a cachaça tem origem definida, identidade regional e produtores identificáveis. E os números mostram um setor em processo acelerado de organização.
O Anuário da Cachaça 2025, elaborado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) em parceria com o Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC), registrou 7.223 produtos legalmente cadastrados, alta de 20,4% em relação ao ano anterior. Os estabelecimentos produtores chegaram a 1.266, quarto ano consecutivo de crescimento, com Minas Gerais concentrando quase 40% dos registros nacionais. O Ceará registrou o maior salto percentual: 38,2% em apenas um ano.
Há uma outra informação que ainda surpreende quem não acompanha o setor de perto: segundo o IBRAC, a cachaça é o terceiro destilado mais consumido no mundo, atrás apenas do soju coreano e da vodca. Não em valor, mas em volume. O que isso significa é que existe uma base de consumo expressiva, sobretudo no mercado interno, que convive com um reconhecimento externo ainda tímido. A oportunidade de ganho em valor, com rótulos de alambique bem posicionados competindo com destilados importados de alto padrão, está longe de ser aproveitada em sua totalidade.
A tendência que explica esse movimento vai além da cachaça. O relatório de tendências do IWSR de dezembro de 2025 descreve o que chama de “premiumização seletiva”: o consumidor bebe menos, mas escolhe com mais critério — e paga mais por isso. O Brasil aparece entre as regiões onde essa dinâmica está mais ativa, com consumidores jovens e uma classe média em expansão puxando a demanda por produtos com procedência verificável e valor agregado. No caso dos destilados, isso se traduz em uma abertura real para categorias que combinam história, processo artesanal e posicionamento distinto. Não é um fenômeno garantido nem uniforme, mas é uma direção que os dados de consumo e valor do setor apontam consistentemente.
Esse movimento de crescimento dos destilados, ainda em formação no Brasil, ajuda a explicar por que o segmento vem ganhando mais espaço também no ambiente de negócios profissionais. É nesse contexto que se insere o ProSpirits, selo incorporado à ProWine São Paulo, maior feira profissional de vinhos e destilados das Américas. O evento ocorre de 6 a 8 de outubro, no Expo Center Norte, em São Paulo, reunindo marcas e produtores de destilados de diferentes países e funcionando como uma plataforma para exposição, conexões comerciais e geração de negócios. As inscrições já estão abertas no site prowinesaopaulo.com.