Última safra antes da filoxera destruir o vinhedo, exemplar de Borgonha foi a leilão pela segunda vez e surpreendeu até os organizadores
Foto: Ilustração
Uma garrafa do Romanée-Conti de 1945 foi vendida por US$ 812.500, cerca de R$ 4 milhões, em leilão realizado em Nova York no fim de março. O exemplar, que tem mais de 80 anos, bateu o próprio recorde mundial.
O leilão foi o La Paulée, evento anual da casa americana Acker Wines. A mesma garrafa já havia sido negociada em 2018, proveniente da adega do produtor Robert Drouhin, por US$ 558 mil (R$ 2,2 milhões na conversão daquele ano), valor que na época já era o maior já registrado por uma única garrafa em leilão. Desta vez, o comprador não foi identificado.
O valor final surpreendeu até os organizadores: o lance superou em 130% a estimativa prévia. John Kapon, presidente da Acker, disse ter tido o privilégio de provar o Romanée-Conti 1945 apenas três vezes na vida e afirmou, em comunicado, que ele ainda é o melhor vinho que já provou.
A raridade não é coincidência. Kapon explica que 1945 foi a última safra colhida antes do replantio do vinhedo, que ocorreu em 1947 por conta do avanço da filoxera, praga que dizimou vinhedos europeus. Com a produção caindo a cerca de 10% do volume normal, calcula-se que apenas dois barris e 600 garrafas foram produzidos naquele ano.
O leilão como um todo movimentou mais de US$ 25 milhões (R$ 126 milhões), com 460 novos recordes mundiais registrados. O Domaine Dujac liderou com 27 recordes, seguido pelo próprio Domaine de la Romanée-Conti, com 23. Além de Borgonha, o evento reuniu colecionadores do mundo inteiro durante três dias.
Um vinho que supera a si mesmo em leilão duas vezes em menos de uma década diz algo sobre como o mercado de vinhos finos opera: parte investimento, parte obsessão, parte história líquida. A garrafa de 1945 não é só bebida. É o último registro de um vinhedo antes que ele deixasse de existir como era.