Da nobreza medieval francesa ao protagonismo nos Andes, a casta que quase desapareceu se reencontrou na Argentina e conquistou o paladar brasileiro
A Malbec nasceu na França e virou símbolo da Argentina. Entre esses dois capítulos, há pragas, geadas, um agrônomo francês e um terroir que ninguém esperava que funcionasse tão bem. Sua origem está em Cahors, cidade do sudoeste do país europeu, às margens do rio Lot. Lá, chamada de Côt ou Auxerrois, a uva produzia vinhos escuros e concentrados que chegaram à mesa do casamento de Leonor da Aquitânia com Henrique II, em 1152. Era uma variedade com história, mas sensível a pragas e fungos, o que acabou sendo substituída por opções mais resistentes nos próprios vinhedos franceses. A filoxera, que devastou a Europa no final do século 19, acelerou esse declínio. Uma geada em 1956 destruiu o que ainda restava dos vinhais originais de Cahors.
A uva já havia chegado à Argentina em 17 de abril de 1853, pelas mãos do agrônomo Michel Aimé Pouget. E o que era pra ser uma coadjuvante — levada para melhorar blends locais — acabou virando protagonista.
Em Mendoza, a Malbec encontrou condições que a França nunca ofereceu: dias quentes, noites frias e vinhedos que chegam a 3 mil metros de altitude, criando as condições para taninos aveludados, cor intensa e aromas frutados que os vinhos de Cahors nunca desenvolveram da mesma forma. Entre 1990 e 2009, a área de cultivo cresceu 173%, de 10 mil para 28 mil hectares. A uva que a Europa quase perdeu tornou-se o maior ativo da vitivinicultura argentina.
No copo, o resultado é direto. Cor violeta intensa, aromas de ameixa, amora e frutas negras maduras, com notas de violeta, baunilha e especiarias — reforçadas quando a bebida passa por barricas de carvalho. Os taninos são redondos e a acidez moderada, o que torna os Malbecs argentinos acessíveis ao consumo imediato, mas com exemplares de guarda que evoluem bem por anos. Os franceses de Cahors seguem em produção — mais rústicos, tânicos e minerais. São duas expressões da mesma uva com pouco em comum além da origem.
O Brasil abraçou a variedade como poucas. A Malbec registrou crescimento de 48% entre os consumidores regulares brasileiros, tornando-se a variedade com maior alta de consumo no país. É frequentemente a primeira uva que um brasileiro aprende a nomear — e uma das que mais voltam ao carrinho.
Na ProWine São Paulo 2026, os visitantes encontrarão uma ampla variedade de produtores de Malbec – a feira recebe vários países com mais de 1.500 marcas. As inscrições para profissionais estão abertas e são gratuitas. A feira ocorre de 6 a 8 de outubro, no Expo Center Norte. Faça seu credenciamento em: prowinesaopaulo.com.