Por que a inteligência artificial está “vencendo” degustações e o que o seu paladar ainda tem a dizer
Fui instigado a trazer um tema que hoje é fruto de muito debate em vários setores da economia, educação e negócios. Me perguntaram qual é a minha opinião sobre o uso da inteligência artificial (IA) no mundo dos vinhos.
Em um mundo onde algoritmos decidem o que assistimos e quem namoramos, era questão de tempo até que a IA invadisse o território mais sagrado do hedonismo: a taça de vinho.
Se antes escolhíamos um rótulo pela beleza da etiqueta ou pela nota de um crítico renomado, hoje, o seu próximo vinho favorito pode ser fruto de um cruzamento de dados químicos e redes neurais.
Assustador? Qual é a sua opinião?
Mas será que uma máquina, desprovida de nariz e língua, pode realmente entender o que faz um vinho ser “vencedor” em uma degustação às cegas ou pode agradar pessoas em uma festa, por exemplo?
A história da IA no mundo do vinho começou com a organização de dados, mas evoluiu para algo muito mais profundo: a análise quimiométrica. Empresas como a americana Tastry e pesquisadores da Universidade de Copenhague criaram sistemas que não apenas leem rótulos, mas “mapeiam” a alma química da bebida.
O grande salto veio quando a IA passou a prever a preferência humana com uma precisão assustadora. Ao analisar centenas de compostos voláteis, as moléculas responsáveis pelo aroma e sabor, e cruzar esses dados com milhares de avaliações de consumidores, algoritmos como o WineSensed conseguem prever se um grupo de pessoas vai amar um vinho antes mesmo da garrafa ser aberta.
Do mesmo modo, já vi pessoas escrevendo ótimos prompts para selecionar que tipo de vinho e/ou garrafa seria mais adequado para um embate de um tema específico e levando em conta o padrão e preferências do grupo que estaria imerso nessa experiência de bebericagem.
O uso de algoritmos para prever “vencedores” em degustações às cegas tem gerado debates acalorados entre puristas e tecnófilos.
Democratização do gosto: A IA não se importa com o preço ou com o prestígio da vinícola. Ela identifica o que é quimicamente equilibrado. Isso ajuda consumidores comuns a encontrarem “pechinchas” de alta qualidade que passariam despercebidas.
Consistência: Um estudo da Harvard Data Science Review revelou que juízes humanos são inconsistentes; menos de 10% deles avaliam o mesmo vinho com a mesma nota se provado duas vezes na mesma sessão. A IA não tem cansaço sensorial.
Descoberta de fraudes: Sistemas da Microsoft e da Casa da Moeda da Itália já usam IA para autenticar vinhos como o Prosecco, protegendo o consumidor de falsificações.
A perda da narrativa: Um vinho não é apenas um “LEGO” invisível composto de água, etanol e taninos. Ele é história, terroir e o suor do produtor. A IA ignora o “alma” do vinho em favor da métrica.
Homogeneização do paladar: Se todos os produtores usarem IA para criar o “vinho perfeito” para o mercado, corremos o risco de perder as excentricidades e os vinhos “difíceis” que desafiam o paladar e expandem nossa cultura.
A grande verdade, defendida por especialistas como o filósofo Barry Smith (diretor do Centre for the Study of the Senses), é que a IA pode representar a linguagem do sabor, mas não a experiência.
“A experiência de degustar requer líquidos reais em bocas reais. A IA pode prever que você gostará de um vinho, mas ela não sente o prazer do momento, a temperatura da sala ou a companhia à mesa.”
O paladar humano é multissensorial. O peso da garrafa, o som da rolha e a memória afetiva de uma viagem à Toscana, ao Vale de Napa na California, à Mendoza ou à Bento Gonçalves são variáveis que nenhum processador de 2026 consegue processar. A IA nos dá o “mapa”, mas nós ainda somos os motoristas que sentem o vento no rosto.
A inteligência artificial na seleção de vinhos não veio para substituir o sommelier, mas para livrá-lo das tarefas chatas, como organizar estoques ou encontrar promoções. O nome disso é produtividade.
A efetividade da IA é inegável para o acerto técnico, mas a experimentação humana continua sendo o único lugar onde a surpresa e o erro podem se transformar em uma memória inesquecível.
O futuro não é humano versus máquina, mas sim um brinde entre ambos. De todo modo, penso que muito vinho ainda vai passar debaixo dessa ponte! Eu sou mais romântico e velha guarda e prefiro o sensorial, a memória do sabor e as experiências para fazer minhas escolhas.
E você?
Fonte: Artigo de Dado Lancellotti para o Contra Rótulo, R7