Título da Associação Brasileira de Enologia foi concedido a Fábio Góes, diretor industrial e enólogo-chefe do Grupo Góes
Pela primeira vez, a Associação Brasileira de Enologia (ABE) reconhece um profissional de fora do Rio Grande do Sul como Enólogo do Ano. O título de 2025 foi concedido a Fábio Góes, diretor industrial e enólogo-chefe do Grupo Góes, de São Paulo. À frente também das equipes técnicas das vinícolas Góes, Filosofia e Venturini, ele quebra um paradigma histórico da premiação. Formado em Enologia pela antiga Escola Agrotécnica Federal Presidente Juscelino Kubitschek, em Bento Gonçalves — atual Instituto Federal do Rio Grande do Sul —, ele também é especializado em Gestão da Qualidade. E falou ao Campo e Lavoura, da Rádio Gaúcha, sobre essa conquista. Confira trechos da entrevista abaixo.
O que representa essa conquista para além da pessoa, mas também para a própria vitivinicultura brasileira?
É muito importante. É um reconhecimento. Eu venho de uma família de longa data na vitivinicultura. Na família Góes, a tradição já tem mais de oito décadas. Os meus familiares se instalaram em São Roque desde os anos 1920 e, em 1938, deram os primeiros passos. Eu faço parte da quarta geração. E tem um significado muito importante, porque, como eu formei no Rio Grande do Sul, sempre fiquei pensando: Será que um dia esse prêmio vem para cá? E veio.
Qual é o terroir da região de vocês?
Sempre trabalhamos como todas as vinícolas, ou seja, temos forte a produção de vinho de mesa. Já com vinhos finos, o trabalho iniciou por volta dos anos 2000. Trouxemos 40 variedades novas para serem testadas aqui, em um laboratório a céu aberto de dois hectares. E tudo isso testando como colheita de verão, como acontece no Sul também. Só que aqui chove muito em janeiro e fevereiro. Mas como gostávamos e queríamos ter vinho, ficamos insistindo até 2011. Em 2014, nós lançamos o primeiro cabernet franc daqui, que, inclusive, ficou entre as 16 amostras mais representativas da Avaliação Nacional de Vinhos. Em 2011, nós fizemos o primeiro plantio pensando na dupla poda.
Como é essa técnica da dupla poda? Como ela ajudou a ajustar o ciclo da região?
O principal significado da dupla poda é a inversão do ciclo da colheita. Nós deixamos de colher as uvas no verão e passamos a colher entre o final de junho e o final de agosto. Como se faz isso? A videira é podada próxima da data do ciclo de formação, no início de setembro. Vem a floração e a brotação e, quando se formam os cachinhos, quebramos com a mão todos eles. A videira, então, somente vegeta, cresce a sua área verde. E aí, por volta de meados de janeiro, fazemos a segunda poda no vinhedo. Feito isso, o vinhedo entende que vai entrar no seu novo ciclo, resultando na colheita a partir do final de junho.
É a chamada colheita de inverno, que é muito singular do Brasil, né?
Exato. E os dois principais fatores para a colheita no inverno são: clima seco e amplitude térmica. Esses dois principais fatores favorecem a maturação fenólica completa da uva, o que faz tirarmos uma fruta com excelente qualidade.
É uma produção ainda muito nova, mas o que dá para se projetar daqui para frente?
Tudo é muito novo e ainda tem muito o que adequar o vinho de hoje para o consumidor. A dupla poda está dando vários vinhos com grande potencial, mas o consumidor, nesse meio tempo, também vem mudando muito a questão de grandes vinhos, encorpados. Está se preferindo vinhos medianos, mais fáceis de se consumir. A dupla poda custa mais e é um desafio para melhorar para ter mais vinhos como esses no mercado.
Falando em consumo, qual que é a dica de ouro para não errar na hora de comprar um vinho?
O primeiro é estar aberto para degustar um belo vinho nacional de diferentes regiões. Deixar um pouco de lado o vinho importado. Segundo, saber o próprio gosto, que, claro, não se discute. E não se deve achar que vinho é só para momentos especiais, mas, também, para o dia a dia.
Fonte: GauchaZH