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Vinícolas e vinhos japoneses estão em alta. Veja o que você precisa saber

Crescimento impulsionado por medalhas internacionais e mudanças regulatórias transforma o Japão em nova fronteira da vitivinicultura mundial

Se a pesquisa na internet for por “bebidas japonesas”, os principais resultados costumam ser saquê, matcha e uísque japonês. O vinho, contudo, pode entrar em breve nessa lista.

Em 2025, o Japão registrou 551 vinícolas, ante 238 em 2008, um salto de 2,3 vezes em apenas 17 anos, conforme dados do governo japonês. Além do ritmo impressionante de expansão, os produtores locais conquistam cada vez mais medalhas prestigiadas em competições globais de relevância, como o Decanter World Wine Awards e o International Wine Challenge.

Em razão da rápida evolução do vinho japonês, materiais educativos sobre o assunto continuam escassos para quem deseja aprofundar conhecimentos na área.

Nick Rowan, especialista em vinhos com certificação WSET, natural da Irlanda do Norte e ex-professor de inglês no interior do Japão, decidiu publicar de forma independente um livro sobre o tema em dezembro de 2025, intitulado Japanese Wine.

A obra de 438 páginas catalogou 725 produtores e 130 variedades de uvas (mais de 80 nativas do Japão) para demonstrar a singularidade e a diversidade do setor, ao lado de centenas de restaurantes, varejistas e festivais dedicados à bebida.

Panorama do vinho japonês

Quais são os princípios básicos do vinho japonês e qual é o seu estado atual? Rowan aponta diversas características que diferenciam o cenário atual do vinho no país.

  • Clima único e desafiador

Diferentemente de regiões vinícolas tradicionais como França e Califórnia, o verão quente e úmido do Japão, somado à estação chuvosa anual e aos tufões, impõe grandes obstáculos à viticultura.

Os produtores adotam contramedidas trabalhosas para gerenciar esses desafios. Entre as técnicas empregadas, os agricultores cobrem manualmente cada cacho de uva com sacos de papel para proteção contra a chuva. Diversos vinhedos conduzem as videiras no sistema de latada alta para afastar os frutos da umidade do solo e aumentar a circulação de ar.

  • Estilos de vinho

Inicialmente, os vinicultores japoneses tentavam emular os grandes clássicos franceses. Contudo, as exigências do clima local forçaram os produtores a estabelecer estilos próprios.

A diversificação tornou-se a marca do vinho japonês. Embora o objetivo inicial de replicar Bordeaux e Borgonha permaneça ativo, os vinhos naturais ganharam espaço no mercado. Por meio da atuação de nomes influentes da indústria, consolidou-se uma identidade própria, capaz de refletir o solo, a cultura e a população local, sem a pretensão de apenas copiar rótulos internacionais consolidados.

  • Principais variedades de uvas

No Japão, a produção engloba uvas europeias tradicionais (Vitis vinifera) e uvas americanas (Vitis labrusca), como Niagara e Concord, adaptadas ao clima local. A uva branca Koshu (de origem europeia) e a tinto Muscat Bailey A (híbrida de origens europeia e americana) mantêm histórico destaque na vitivinicultura do país.

Tanto a Koshu quanto a Muscat Bailey A passam por aprimoramentos para elevar a expressão de seus aromas e sabores. Embora variedades internacionais como Chardonnay, Pinot Noir e Merlot concentrem grande parte das atenções das vinícolas, os agricultores passaram a cultivar tipos menos óbvios, a exemplo de Albariño, Petite Manseng e castas nativas da Itália, Hungria e Croácia, além de novos híbridos desenvolvidos recentemente.

As uvas americanas costumam apresentar um aroma característico conhecido no meio técnico como “foxy” (que remete a suco industrializado, tutti-frutti ou refrigerante). Esse perfil sensorial resulta do composto químico antranilato de metila, utilizado na indústria alimentícia.

Embora esse traço seja evitado no mercado global, consumidores no Japão apreciam seu perfil frutado e fácil de beber. A Muscat Bailey A, por exemplo, traz esse caráter. Os enólogos aplicam diferentes técnicas de vinificação, como o envelhecimento em barricas de carvalho, para equilibrar esse perfil e adequar o produto ao mercado internacional.

Principais regiões produtoras

Existem vinícolas instaladas em 46 das 47 províncias do Japão, com exceção da província de Shiga (onde há projeto para abertura em breve). Além de polos tradicionais como Yamanashi e Nagano, a ilha de Hokkaido, no norte, transformou-se em um polo produtivo relevante em razão das mudanças climáticas.

Reformas regulatórias também aceleraram o setor. A legislação fundiária japonesa exigia uma área mínima de terra agrícola para funcionamento, o que dificultava o acesso de pequenas vinícolas. Em 2023, o governo extinguiu a exigência de metragem mínima. Adicionalmente, a implementação de “Zonas Especiais de Vinho” a partir de 2003 reduziu as barreiras de entrada para novos empreendimentos.

Atualmente, o país abriga desde operações industriais e propriedades familiares até microvinícolas urbanas e vinhedos em telhados de Tóquio. Em consequência desse movimento, o governo estabeleceu o sistema de Indicação Geográfica (GI) para proteger e reconhecer as identidades regionais. As cinco regiões com proteção de GI são Yamanashi, Hokkaido, Nagano, Yamagata e Osaka.

Trajetória futura

O consumo doméstico de vinho japonês acompanha a expansão da produção. Dados oficiais mostram que, entre 2006 e 2023, o consumo de vinho importado no Japão subiu 64%, impulsionado pela oferta de rótulos acessíveis, como os vinhos chilenos. No mesmo período, o consumo de vinho nacional registrou avanço de 27%, o que indica potencial de expansão no mercado interno.

No cenário global, o vinho japonês respondeu por apenas 1,4% do total de exportações de bebidas alcoólicas do país em 2025, tendo como principais destinos China, Estados Unidos e Hong Kong.

A expansão em larga escala enfrenta limitações geográficas e estruturais. A topografia do Japão conta com apenas 27% de terras planas, contra 73% na França, e a fragmentação dos vinhedos em pequenas parcelas reduz a eficiência operacional. Por essas razões, a produção deve permanecer concentrada em um nicho de alta qualidade.

A valorização do produtor rural no Japão fortalece essa cultura de nicho. Ao contrário de mercados onde os produtos agrícolas são tratados de forma genérica, os agricultores japoneses que cultivam frutas de excelência alcançam alto reconhecimento público. Os enólogos costumam destacar o nome dos viticultores nos rótulos das garrafas como forma de atestar a singularidade da matéria-prima e expressar apreço pelo trabalho do campo.

*Reportagem publicada originalmente em Forbes.com

Fonte: Forbes Agro

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