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Como funciona a produção de vinhos biodinâmicos e por que ela é especial

A produção biodinâmica, que utiliza compostos naturais e calendários lunares, pode originar vinhos mais vivos

Produzir vinhos seguindo os princípios da biodinâmica transforma um processo que já é difícil, físico e demorado em algo monumentalmente mais desafiador. A vinificação biodinâmica vai além do orgânico em um ou até três níveis, e depende de práticas que vão desde a aplicação de chás de compostagem totalmente naturais nas videiras para prevenção de pragas até o acompanhamento do calendário lunar para decisões de plantio.

Clay Wesson, diretor de viticultura da Montinore Estate, um dos maiores produtores biodinâmicos dos Estados Unidos, explica que um dos maiores desafios é conciliar a produção com outras tarefas. Isso é quase um eufemismo. A lista é grande. “Na biodinâmica não existem atalhos nem soluções rápidas”, afirma Mini Byers, co-proprietária da Cowhorn Vineyard & Garden, no Vale de Applegate, no Oregon (EUA). “Quando algo dá errado na vinha, não podemos simplesmente borrifar uma solução e seguir em frente.”

Vinho biodinâmico
Uma coisa é certa sobre o vinho biodinâmico: ele é o mais natural possível. Muitos argumentam que isso também afeta o sabor, dando aos vinhos mais complexidade e vitalidade. Para entender melhor o trabalho envolvido nessa prática vitícola, a Forbes EUA conversou com Mini e Clay sobre os desafios e os benefícios.

Qual é o maior desafio em cultivar de forma biodinâmica?

Clay Wesson: Dependendo da escala da fazenda, é o momento em que tarefas concorrentes precisam ser executadas, além da logística para realizar todas elas. Com mais intencionalidade focada no vinhedo, é preciso equilibrar o trabalho e os custos com a qualidade como prioridade.

Mini Byers: Um dos maiores desafios é também um dos maiores presentes: o tempo. A agricultura biodinâmica consome muito tempo e, às vezes, pode ser um pouco angustiante. Ela exige que estejamos completamente presentes, observando, escutando, respondendo, sem atalhos nem soluções rápidas.

Quando algo dá errado na vinha, precisamos parar, observar e chegar à raiz do problema, naturalmente. Isso pode significar introduzir uma cultura de cobertura, ajustar nossa compostagem ou usar uma preparação biodinâmica. Exige confiança, intuição e muita paciência. Mas a recompensa é um vinhedo saudável, expressivo e vivo.
O que os chifres de vaca têm a ver com a agricultura biodinâmica?

Clay: Os chifres de vaca são uma parte muito importante da agricultura biodinâmica, pois são usados para criar dois compostos orgânicos essenciais: a Biodinâmica 500 e a Biodinâmica 501.

A 500 é aplicada ao solo como força estimulante na primavera e no outono. A 501 é utilizada na primavera e no verão, diretamente na videira e no ar ao redor, para estimular as forças vitais da planta e também para melhorar a maturação e o sabor das uvas.

Mini: Uma das práticas mais importantes que seguimos é a criação da BD500. A cada outono, colocamos esterco fresco de vacas lactantes dentro de chifres e os enterramos no solo durante o inverno, numa época em que a terra está “inspirando” e atraindo a energia para dentro.

No início da primavera, desenterramos os chifres e encontramos um composto rico, semelhante ao húmus, repleto de vida microbiana. Em seguida, mexemos essa matéria em água formando um vórtice e aplicamos no solo, estimulando o crescimento das raízes, aumentando a atividade microbiana e ajudando as videiras a acessar nutrientes de forma mais natural e equilibrada.

O chifre da vaca concentra forças naturais e transforma o material dentro dele. Logo acima do local onde os enterramos, construímos uma espiral de pedras, um marcador silencioso desse processo sagrado e cíclico. É por isso que um dos nossos vinhos emblemáticos se chama Spiral.

É possível perceber diferença no sabor entre cultivo biodinâmico e convencional?

Mini: Acreditamos que sim, embora nem sempre seja sobre o que se sente no paladar, mas sim como o vinho se apresenta. Os vinhos cultivados de forma biodinâmica costumam ter uma clareza e energia específicas. Eles parecem mais vivos na taça, mais conectados ao seu lugar de origem.

Dá para sentir a vitalidade do solo e a saúde do vinhedo na profundidade, estrutura e textura do vinho. No nosso Syrah, por exemplo, há uma sensação de enraizamento, uma vivacidade que acreditamos vir diretamente da maneira como cultivamos.

Clay: Acho que às vezes dá para sentir sim uma diferença na uva e no vinho, mas é importante não deixar um viés pessoal interferir e manter a objetividade. Já provei vinhos orgânicos e biodinâmicos mais interessantes, cuja qualidade atribuí certamente às práticas adotadas no vinhedo e na vinícola.

Um bom amigo e consultor, Adriano Zago, na Itália, organizou degustações às cegas não só com vinhos, mas também com outros produtos cultivados sob diferentes métodos, e apontou diferenças perceptíveis.

É difícil não ter uma inclinação positiva por práticas agrícolas limpas e pela atenção aos detalhes dos agricultores e enólogos que produzem vinhos biodinâmicos. Isso certamente contribui para a percepção e a força da narrativa por trás desses vinhos.

Em que a viticultura biodinâmica é diferente da orgânica?

Clay: As práticas da agricultura biodinâmica se baseiam em uma boa agricultura em geral, e é necessário ser 100% orgânico antes de buscar a certificação biodinâmica. Os padrões da biodinâmica se somam às rigorosas diretrizes do USDA NOP, programa oficial do governo dos EUA que regula, fiscaliza e certifica produtos orgânicos no país.

Uma grande diferença é a dedicação de 10% da área da propriedade à biodiversidade, a redução ou eliminação de insumos vindos de fora da fazenda para fertilidade e proteção de culturas, a proibição de produção paralela e a incorporação de animais e práticas de manejo animal na fazenda.

Mini: A agricultura orgânica e a biodinâmica têm muito em comum. Ambas evitam pesticidas, herbicidas e fertilizantes sintéticos. Mas a biodinâmica vai um passo além. Ela enxerga a fazenda como um organismo vivo completo, onde tudo, solo, plantas, animais, pessoas e até os ritmos cósmicos, está interconectado.

Enquanto o foco do orgânico é evitar o que não usar, o da biodinâmica é como nutrir. Isso significa que não apenas removemos o que faz mal. Também reintroduzimos vida ao sistema por meio de compostos preparados, sincronização intencional e práticas holísticas.

É uma agricultura que se baseia na intuição e na ciência. E, para nós da Cowhorn, é o único caminho que faz sentido, porque quando a terra prospera, os vinhos prosperam também.

Fonte: Forbes

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