A cidade fundada no século XVII por bandeirantes transformou morros cobertos de parreiras numa das rotas gastronômicas mais movimentadas do interior paulista
A uma hora de São Paulo, existe um lugar onde o vinho não é novidade de boutique nem tema de experiência importada. Em São Roque, a tradição é anterior à própria ideia de turismo enológico no país. Foi ali, em julho de 1942, que o Brasil realizou sua primeira festa dedicada à produção e comercialização da bebida — um registro oficial que a Secretaria de Turismo do Estado de São Paulo mantém como referência histórica.
A cidade fica a 65 quilômetros da capital, com acesso pela Rodovia Raposo Tavares ou pela Castello Branco, e recebe mais de 600 mil visitantes por ano. Não é pouco para uma estância do interior com pouco mais de 90 mil habitantes.
O que sustenta esse fluxo é a combinação entre história e volume real de produção. São Roque fabrica cerca de 20 milhões de litros de vinho por ano, divididos entre vinhos de mesa, que respondem por 75% da produção, e vinhos finos, responsáveis pelos outros 25%. A partir de 1884, foram imigrantes italianos, portugueses e espanhóis que cobriram os morros da região com vinhedos e foram construindo, ao longo de décadas, o que hoje se chama de Estrada do Vinho.
LEIA TAMBÉM: Rotas do Vinho de São Paulo chegam a 87 endereços com 21 novos pontos no mapa
O roteiro tem cerca de dez quilômetros de extensão e percorre três vias: Estrada do Vinho, Estrada dos Venâncios e Rodovia Quintino de Lima. Pode ser feito de carro, moto ou bicicleta. Ao longo do trajeto, mais de 30 estabelecimentos recebem visitantes: vinícolas, adegas, restaurantes, empórios e pousadas. A maior movimentação acontece nos fins de semana, mas a maioria dos pontos abre todos os dias da semana.
Há um aspecto que surpreende quem conhece São Roque pela primeira vez: a cidade não é só terra de vinho. Ela também é um dos principais produtores de alcachofra roxa do Brasil. A flor chegou com os imigrantes italianos no fim do século XIX e virou, com o tempo, um segundo símbolo local. A safra ocorre entre setembro e novembro, e os restaurantes da Estrada do Vinho costumam criar cardápios sazonais com a iguaria nesse período.
Cada estação do ano em São Roque tem uma característica diferente. No verão, entre janeiro e fevereiro, acontece a vindima — a colheita da uva e a pisa tradicional. No outono, os plátanos mudam de cor e o ritmo da Estrada do Vinho fica mais tranquilo. O inverno, com temperaturas que podem chegar a dez graus, é o período clássico para degustação de tintos ao lado de lareiras. Na primavera, a safra da alcachofra anima a cidade com um calendário paralelo ao do vinho.
O vinho de São Roque não compete com o sul do país em volume de finos nem com as importações em prestígio de prateleira. Mas guarda algo que a maioria dos destinos vitivinícolas do Brasil não tem: a anterioridade. Foi neste local que a bebida virou motivo de festa pela primeira vez no país.